27 outubro 2010

Os Inexistentes - Renato e a Coca-Cola

Depois de uma intensa sessão sexual, Amanda pediu uma garrafa d'água para Renato, do frigobar daquele motel na Lapa. Renato voltou com a água e uma Fanta. Não tinha idéia do motivo de ter escolhido Fanta. E Amanda ao ver isso, se maravilhou. Disse que tinha uma teoria sobre homens que não escolhiam Coca-Cola, que esses homens eram mais interessantes que os outros. Eram especias e únicos, como Renato era, disse Amanda. Depois daquele dia, Renato decidiu nunca mais beber Coca-Cola na vida.

***

Renato nunca teve pressa na vida, e quando conheceu Amanda não teve pressa em conhecer. Desde que foi apresentado a ela, Renato passou 12 meses sem nem notar sua presença. Era só a namorada do amigo do amigo do antigo colégio. Ela também não se mostrava aberta a conversas. Depois de um tempo, Renato a notou de fato. Uma vez ficaram conversando enquanto ao lado o namorado dela, o amigo direto de Renato e um terceiro amigo falavam sobre música clássica, como se fossem entendidos do assunto de verdade e não estudantes de Economia. Renato e Amanda falaram sobre Pixies (que ela gostava e ele nunca se interessou tanto), sobre Los Hermanos ( que ele fingiu ser amigo para pregar uma peça), sobre novas bandas e caminhos alternativos para o Rock. Renato concordava com a tese que Strokes era um sopro de novidade no Rock e Amanda insistia que Rolling Stones nunca saiu de moda. Antes de ir embora, Renato passou sozinho no McDonald's e pediu um nº1 com Coca.

O tempo se passou e pouco se viam. Renato nada sentia por Amanda, Amanda nada sentia por Renato. Eram familiares desconhecidos, e nada mais. Ambos estavam naquele grupo de pessoas que são legais, mas não importantes na vida. Mas a vida moderna inclui os amigos e os só conhecidos no mesmo orkut, e lá estavam eles conectados numa rede social.

Amanda largou o amigo. Foi no memso lugar onde Renato a tentada convencer sobre Strokes, mas não existe nada de mágico nisso. Só faz a mágica quem tem a coragem de enfiar a mão na cartola para tirar o coelho. Isso foi apenas contingência, palavra que anos mais tarde Renato aprendeu com Amanda. E ao contrário da primeira avaliação de Renato, Amanda era uma pessoa sociável. Continuou amiga de todos os amigos do ex. Agora, ela simplesmente fazia parte.

Uma vez num acaso encontro de cinema ela disse que achava Renato um menino interessante. Ela não tinha carga de desejo nenhum nessa frase, e Renato não achou carga de desejo nenhum de volta naquele dia. Naquele dia.

Começaram a e falar por MSN, bem lentamente. desde o dia que foram apresentados, fazia mais de 24 meses que iniciaram o processo de se tornar íntimos. E mesmo com tudo diferente foi pintando de repente uma vontade de se ver... para Renato. Amanda Mônica preferia continuar gostando do Banderas e do Bauhaus, de Mutantes, Caetano e Rimbaud. Menos de Renato.

Renato iniciou o processo de tentativa, mas Renato, como vocês já puderam perceber, era lento. Ele sempre foi lento em tudo. Lento para entender certos processos do mundo e lento até para me contar essa história, que eu fui descobrindo aos poucos. Uma ano depois dessas conversas. Renato não cabia mais em si e disse num rompante de desejo que queria Amanda. Mal havia mandado essas palavras para ela, se arrependeu: Não era assim que funcionavam as convenções socias, era sinceridade demais para ser dita. Um nível de falsidade precisava sempre existir. Mas para sorte de Renato, Amanda disse que ele não precisava fugir e esconder esses sentimentos. E para o azar de Renato, Amanda amava outro.

E desde desse dia Renato se sentia com ela como o menino pego pela mãe no banheiro com as calças na mão. Havia um elefante na sala e em vez de conversar sobre isso, estavam dando amendoins para ele. Amanda era generosa, mas nunca decidiu mergulhar nessa aventura. E Renato só fazia o que sabia: Esperar. Amanda ainda gostava de um certo nível de provocação, e Renato se contentava com o que tinha.

Até que 30 meses depois da confissão de Renato e 66 meses depois de serem apresentados. Amanda cedeu. Não havia mais segredos entre eles, e ela o admirava, em sua forma. Renato se sentia especial por ser admirado por uma menina que ele julgava única, e que tinha o grave defeito de não querer ser dele. De certa forma, isso o fazia se sentir importante e quando Amanda disse para Renato o que pensava de homens que não escolhiam Coca-Cola, Renato se sentiu mais especial do que nunca.

Foram 3 encontros num quarto de motel. O primeiro beijo do "casal" aconteceu já dentro do quarto. Não era preciso joguinhos para entrar lá. Ambos se conheciam mais do que imaginavam e Amanda, observadora nata, sabia mais sobre Renato do que Renato poderia imaginar. E nesses encontros, Amanda se entregou como troféu, e permitiu a Renato que ele a usasse como quisesse, e que fizesse coisas que ele nunca fez com outra mulher. Pela primeira vez na vida, Renato se sentia tão poderoso quanto os amigos que ele admirava e julgava nunca conseguir ser. Finalmente Renato era um Rockstar, não importava que a plateia fosse de apenas uma pessoa. Aquilo era clássico como Rolling Stones e estava salvando o Rock da vida de Renato como Strokes

Mas Renato errou a mão. O que achou ser apenas 3 encontros furtivos na noite da Lapa eram na verdade agora 68 meses de relacionamento desgastado com o tempo, com uma crise dos 7 anos que chegou um pouco mais cedo. Como quem dá um doce e tira. Amanda se foi. "Você não pode dar o que eu preciso" ou alguma frase típica feminina assim que ele não soube explicar direito. Renato era mais uma vítma desse Rock moderno, que idolatra uma banda para no Grammy seguinte a esquecer. Renato virou Old News sem perceber que já tinha surgido como Old News.

Dia desses, Renato teve que passar pela Lapa, e quando deu por si passava em frente ao motel da Lapa, dos encontros e dos gemidos. Assim que passou pelo primeiro botequinho, pediu uma garrafinha de Coca-Cola e tomou de uma vez, como quem escreve uma carta de suicídio, como quem assina um atestado de mediocridade. Renato deve ter levado só uns 2 goles, para meu espanto e de outros presentes lá.

Eu, que fui entregar uma máquina fotográfica e tinha parado para comer nesse mesmo botequinho, estava ao lado dele. E foi para mim que Renato contou esse caso, e fez questão de frizar que ao menos numca chorou por ela, disse, visivelmente tenso.

Eu acredito. De fato, tenho certeza que Renato nunca tenha chorado por Amanda.

Não com os olhos.

6 comentários:

Rafael Carvalhido disse...

Meu primo, vc tem um dom!

Anônimo disse...

Nossa... vc escreve super bem...

Carol disse...

Engraçado isso.. quando a gente não chora com os olhos dói muito mais, por muito mais tempo.

d disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe disse...

Caramba! Parabéns, texto incrível!

Anônimo disse...

Bacana seu texto, me fez lembrar a velha e maravilhosa canção de Renato Russo " Eduardo e Mônica"... Talvez até tenha sido uma nova versão (intecional) da música criada por você...rsrs Continue refletindo no que é bom e útil para a vida, assim nos levará ao seu mundo... Abraços