03 Dezembro 2011

Vantagens do namoro distante

Falar mal, uma arte mais antiga que desenhar homens caçando nas paredes da caverna. Isso você já deve saber. O que você também deve saber é que relacionamentos distantes são ruins. Todo mundo vai elencar uma série de fatores para provar por A + B que não funcionam - eu sei, até uns meses atrás eu era um desses caras - e não, eles não estão errados. Namorar uma pessoa que você tem que passar 6 horas num ônibus para ver (e voltar) tem dezenas de contratempos e dificuldades que fazem aquele cara de visão mais fechada (eu - até "ontem") negar a possibilidade de construir algo com alguém que você não pode ver no máximo dez bairros depois. Mas e as vantagens, estimado público e 12 leitores? Vocês não acham que na vida o yin e o yang se equilibram e toda aquela coisa de natureza agindo e tal?

Pois, bem, o nosso faro jornalístico meets Revista Nova traz para vocês o nosso inédito e original VANTAGENS DOS RELACIONAMENTOS DISTANTES, um estudo pioneiro (até link esfregado na caixa de comentários em contrário, seguidos de "kkkkk mandou mal ae"), solta o play, DJ

Não é qualquer briga que se cria. Deveria ser regra, não? Deveria servir para qualquer relacionamento, amoroso ou não, mas sabemos que isso é impossível. Mas veja. Você está longe, só tem um contato telefônico, vai perder tempo brigando por qualquer coisinha? Bom, tem gente que vai, mas quando você ouve coisas do tipo "ah, a gente já se fala tão pouco, eu não deveria perder tempo reclamando disso" em vez de um "Você não me liga" "mas estou te ligando nesse momento" "Mas me liga pouco" de um relacionamento clássico você entende que a saudade é uma coisa ruim, mas permite que o lado bom das pessoas aflore.

Cada encontro é um megaevento. Isso é baseado na lei de oferta e procura, né? Se temos menos encontros reduzidos por mês (basicamente um), é normal que fiquemos muito atenciosos e dedicados neles, afinal, acabam logo. Fica uma coisa quase magnética de não ter vontade de desgrudar.

Explore a cidade em doses homeopáticas e combata a rotina. Imagine um casal clássico. Vamos supor que eles saiam ao menos uma vez por semana. São no mínimo 52 saídas por ano. Devido a questões de logística, interesses e necessidades financeiras, você não tem 52 lugares para sair, o que causa repetição, o que causa rotina o que causa "ai cinema de novo?" o que causa desgaste o que causa você pegar sua namorada com um amante, um garoto de programa, um time completo dos segundos quadros do Bonsucesso FC e você tem quase certeza que um Dálmata foi se esconder embaixo da cama. No relacionamento distante, as saídas são bem reduzidas, o que leva a que lindos restaurantes japoneses perto da sua casa possam não só ser um bom encontro como só precisa ser repetido na próxima passagem do Halley. Ainda mais quando uma hora ela vem e outra hora você é que vai: São duas cidades esperando para serem degustadas com calma, desde pracinhas até restaurantes maravilhosos, passando por motéis.

Seus amigos são livres. Com poucos encontros, você não tem que ficar depositando sempre a recusa da pelada ou da cerveja com um "não dá, eu e a namorada vamos assistir o novo filme da saga crepúsculo", o que faz com que você ouça que "você abandonou os amigos" como que duvidem um pouco da sua masculidade ao assistir filmes que vampiros são feitos de caninos e glitter.

Não existe dor de cabeça com namoros distantes. Pessoas que não tem o namorado(a) por perto não sentem dores de cabeça, não dizem "hoje não", não pensam que tem que trabalhar cedo no dia seguinte. Ou é hoje ou só no próximo feriadão, e aí?

O amor é mais intenso. Sim, exatamente porque a carga de saudade acumulada faça com que cada encontro seja um carro voando a 120Km/h na Rodovia D Pedro I no trecho em direção a Campinas

18 Novembro 2011

Teoria da Fonte

Mês passado eu estava voltando com músicos e equipe após um show. Estávamos numa van e lá havia um convidado de um dos músicos, que conseguiu uma carona conosco. Em um dado momento, o referido começou a disparar piadas, a primeira, que durou o tempo que uma van leva de Anchieta até depois de Coelho Neto pela Av. Brasil, foi um absoluto fracasso. Eu já conhecia, mas quem não conhecia não entendeu. Ele fez outra dizendo "agora vocês vão rir" e foi outro fracasso retumbante. Mais uma tentativa e nova falha, a situação já estava constrangedora. Eis que um dos músicos conta uma piada e todos caem na gargalhada. Era uma piadinha boba, digna de hora do recreio no Colégio Imaculado Coração de Maria, o que só gerou revolta do primeiro contador de piadas da viagem. Depois daquilo, ele acreditou piamente que só não ríamos de pirraça, que eram do mesmo nível e coisa e tal.

Só que a questão envolve um pouco mais do que pirraça. Eu não sou cientista (e mesmo que fosse acho que seria impossível atribuir um número cientificamente ao que vou falar agora), mas acredito que mais de 50% da graça da piada está exatamente na maneira e em quem se conta. Esse mesmo músico da piada de sucesso: Ele já contou um determinado caso de bastidores da MPB umas 4 vezes na volta de shows. E nas 4 vezes todos morreram de rir. A história em si, não fiquem curiosos, não tem nada de escandalosa, só uma noite de bebedeira, mas a maneira de se construir diálogos e situações compõem o ambiente hilário.

A partir desse dia da piada ruim na van, eu pensei bem a respeito e comecei a criar o que eu chamo de "Teoria da Fonte". Ela não serve só para o humor, mas para vários aspectos das relações sociais. Eis a Teoria:

"A sua opinião e reação a um determinado fato é impossível de ser desassociado aos seus sentimentos e opiniões sobre o agente/autor e influi muito mais do que nossa consciência deixa perceber".

Complicou? Exemplificamos: Uma pessoa é traída pelo namorado. A partir de agora, esse namorado é um cretino, um canalha, não tem coração e nada justifica a traição. Se ele estava infeliz, que largasse primeiro, oras!. Ao mesmo tempo, uma amiga dessa primeira pessoa trai o namorado. E essa amiga é tudo na vida dessa pessoa. Agora, ela vai e diz à amiga - inconsolável porque o namorado descobriu a traição e não pensou duas vezes em terminar tudo - que essas coisas acontecem, que ela teve um momento de fraqueza, e que o namorado traído não só deu motivos para ser traído como também por mais grave que achasse aquilo, não deveria largar a pessoa assim de qualquer maneira.

Bipolaridade? Dois pesos e duas medidas? Não, só a Teoria da Fonte. Se você for questionar a diferença de comportamento para duas situações iguais, a pessoa irá dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Pra nós, que vemos de fora toda a situação, são duas traições iguais. Para a menina em observação, temos de um lado um cara que vacilou com ela e uma amiga que é tudo na vida dela e que não a causou mal algum.

É um mal? Sim. Acabará com o mundo? Não. O mundo sempre existiu assim. A Teoria da Fonte explica basicamente todas as relações humanas, principalmente das pessoas mais dramáticas e que gostam de transparecer aos outros o que estão sentindo, porque é assim que as coisas ficam mais evidentes. Eu não sou nenhum mestre zen como alguns amigos dizem, mas gosto muito de uma menina que me ajudou num momento difícil da vida, e eles a odeiam e vivem falando mal dela, e me perguntando como eu a aguento. Eu os entendo, eles não tiveram com ela uma reação tão próxima como eu tive, e por isso a criticam até em coisas que fazem igual. Ao memso tempo, odiava uma pessoa desde 2005 e ficava vendo nas fotos dela do orkut traços de loucura. Aí fiz as pazes com ela no começo do ano e comecei a perceber a beleza de seu sorriso e de seus olhos, que eram rigorosamente os mesmos, mas pareciam ocultos para mim.

Mas e aí, tem tratamento? Tratamento não tem porque não é uma doença, mas existe um exercício que vai fazer você se surpreender do quanto de Teoria da Fonte existe dentro de você e você nunca percebeu:

Pegue uma pessoa que você esteja odiando no momento, pode ser o caixa do supermercado que errou o troco, o segurança de boate que não te tratou devidamente ou o seu irmão que acabou de aprontar alguma com você. Beleza. Agora SEJA essa pessoa. tente se colocar no lugar dela, o que está em jogo aqui é um exercício de empatia que você precisa se ver com olhos que não são os seus, uma visão de fora. Se fosse outra pessoa que fizesse o que você fez, você aguentaria? Nessa brincadeira, uma regra é de suma importância. Você tem que se jogar no lugar da pessoa até descobrir o que a motivou a agir assim. E não vale enquanto suas respostas forem "por maldade" ou "de sacanagem". Não, não existe uma KGB só para te perseguir, eu te juro, você nem é tão importante assim para o mundo. SEJA a pessoa e tente achar os motivos da pessoa. Garanto que você vai se surpreender ao se olhar sem as amarras da proteção.

20 Outubro 2011

Quinze Minutinhos

A primeira impressão ao entrar no espaço urbano de Campinas é de que estamos em uma cidade grande. É uma pequena cidade grande. Densa, porém curta. Passarei a chama-la de São Paulo Bonsai. Eu desci do ônibus e estava na rodoviária. E a rodoviária de Campinas era melhor que o aeroporto Santos Dumond. Até então eu estava relativamente tranquilo e despreocupado e o impacto de estar em um lugar novo me deixava meio distraído. Avisei da minha chegada e ela falou que só poderia chegar em uma hora e meia. Tudo bem, o que era noventa minutos para quem já esperava muito mais?

Que ela era linda eu já sabia desde agosto de 2010. Que eu deveria tentar alguma coisa com ela eu já sabia desde março, quando vi receptividade da parte dela. Que estávamos desesperados para nos vermos eu sabia desde o dia 23 de junho, data mundialmente conhecida como o meu aniversário. Noventa minutos não era nada. E de fato não foram. Puxei um joguinho do celular, e o tempo passou sem me fazer muito nervoso. A tarde ia se tornando noite no interior paulista.

Noventa e quatro minutos depois ela me liga. Pediu mil desculpas, disse que só conseguiu sair do lugar de onde estava naquela hora e que estava indo direto me encontrar. Eu calmo e serenamente disse que tudo bem e perguntei em quanto tempo ela chegava. Ela respondeu "em quinze minutinhos" e foi a partir do final dessa ligação que todo aquele meu autocontrole desde a manhã deixou de fazer qualquer efeito. Quando ela falou minutinhos com o diminutivo característico de quem não faz a menor ideia do tempo que levará eu sabia que tudo podia acontecer. E com meu espírito pessimista me dominando, considerava até que ela me olhasse por dois segundos, dissesse "é... Não" e eu já comprava da rodoviária mesmo minha volta para o Rio.

Esses quinze minutinhos (que na verdade foram 35) foram uns dos minutinhos mais tensos da minha vida. Tinha esquecido de perguntar qual era o carro dela, o que me fazia calafrios a todo e qualquer carro que passava lá. Era uma média de um carro a cada cinco segundos. Doze carros por minuto. Multiplicados por 35 minutos tínhamos entre eu e ela um total de 420 carros. Quatrocentos e vinte arrepios, já que nós do clube dos solteiros tensos não descontamos nem os taxis. Eu aguardava tanto esse fim de semana e não sabia lidar com o inicio dele.

Fiquei lembrando das nossas conversas iniciais, do medo de pisar em ovos, do medo de uma piada mais forte ser levada a sério, e esse medo partia dos dois lados. Até que uma conversa regada a álcool, esse Wikileaks dos nossos sentimentos, jogou tudo no ventilador: "o que eu queria era estar aí com você". "eu também queria". A partir daquele dia esse meu sofrimento na espera da rodoviária era só uma questão de tempo.

O coração pulava meio estranho. Ele parecia bater num ritmo normal, mas os saltos eram mais fortes. Por mais que eu goste dela e ela goste de mim, quando seria o momento certo de dar um beijo? Novamente a cartilha dos solteiros tensos vinha colocar lenha na fogueira: se fosse antes da hora que ela achasse apropriado eu poderia passar de apressado ou tarado. Se eu esperasse demais ela poderia achar que eu não havia curtido e perderia o entusiasmo. Acho que ela chegou pois tem uma moça num carro acenando para mim. Abaixo para pegar a mala com a tensão máxima. A mão tremeu inutilmente, pois vi que ela acenava na verdade para duas meninas que estavam do meu lado. O sofrimento continuava.

E se eu fosse enganado de alguma forma pelos meus desejos? E se minha vontade de estar com ela me deixasse cego para muitas outras coisas? E se a câmera do Skype me deixar mais magro do que realmente sou? Olha, sabe o que deve ter acontecido? Ela já passou, já me viu e seguiu reto. Só está esperando que eu ligue para ela para inventar alguma desculpa. Teve que levar o cachorro para a aula de Kung Fu, buscar a avó que foi no hospital para fazer a fotossintese, qualquer coisa, porque já me viu e desistiu de continuar com essa loucura é isso tenho certeza que é isso essa pessoa já deveria ter chegado me largou aqui essa cretina não acredito que me largou aqui depois de ter viajado sete horas com um barulho de joguinho irritante na minha orelha eu tomei um toco fudido deixa eu pegar aqui o celular para ver que horas são e ver se está tudo bem com ela preciso ligar fico preocupado com essa cachorra ah, não é ela ali naquele Renault?

Cachorra. Cretina. Linda. Ela é linda. Está perdoada. Mas só de maldade vou fingir que não vi. Vou deixar que pela última vez na vida ela tenha que implorar minha atenção já que pelo visto nunca mais será possível deixar de ter.

E dentro do carro a surpresa. Num curioso momento que posso descrever como um deixa que eu deixo, o primeiro contato físico foi um doce beijo.

Ela me beijou. Esse fim de semana tem tudo para dar certo. Essa vida tem tudo para dar certo. É permitido sonhar.

18 Agosto 2011

O Terno de Asperger

Definitivamente eu tenho alguma grande dificuldade em obedecer certas ordens. Se por um lado isso é ruim em muitos momentos (não passe no sinal vermelho, deixe seu recado após o sinal, não assista esse novo filme do Win Wender) em outros alguns atos após me sentir muito preso executar uma tarefa dá uma sensação de realização e liberdade que quem pratica esses atos normalmente não sente.

Sábado irei usar um terno. A última vez que usei um terno foi em 2004, Maio. Era um casamento que o local da recepção (o feioso Clube Naval na Av. Rio Branco) exigia o uso de terno. Eu odeio terno. Eu continuo odiando terno. Antes dessa data, teve uma oportunidade em que eu tinha a opção de usar terno e não usei. E tudo isso porque comecei a ouvir que eu ficaria bem de terno de tal forma que começou a parecer que eu SÓ seria um bom homem se usasse terno, e que não gostar de usar terno só era algo contra mim. Usei uma desculpa (de que não ia poder usar porque ia também operar o som da banda da festa) e vesti uma camisa social normal. A de sempre, inclusive. Mas dessa vez, não só o terno não é obrigatório como não tinha ninguém insinuando que eu deveria. Daí eu - esse espírito mimado que não gosta de ordens - fui lá e fiquei feliz da vida com a escolha do aluguel que estou até pensando em comprar um. Quem te viu, quem te vê. Para um cara que escreveu uma letra que o título é "engravatados enforcados" é uma senhora mudança.

Mais ou menos assim que ando me sentindo normalmente. Livre. A Doce tá no papel de parede do celular porque eu quis, e não porque ela citou que não estava de tal forma que me brochava colocar em seguida. Uma coisa que eu sempre tentei fazer foi uma música para alguém. Quem pediu não conseguiu e quem eu queria muito fazer nunca conseguia terminar, mudava refazia. Tudo pelo medo de não estar agradando o bastante. A Doce ganhou a dela e eu nem tive muito trabalho, foi fácil. Em vez de pedir, ela me fez querer fazer. Propositalmente ou não, aí não sei.

Não que tudo e todas sejam grandes vilãs e a Doce a grande mocinha da minha vida, nunca pensem um negócio desse. A diferença é que é uma das poucas vezes da minha vida que me sinto livre, me sinto leve, sem a pressão, sem uma cobrança grande (todo relacionamento tem alguma).. E talvez, e é um grande talvez, quase um com certeza, seja exatamente essa a peça que falta no motor: Em vez de um câmbio cheio de marchas que manipula o torque, uma embreagem que deixa o motor girar na velocidade que quiser.

Aliás, já contei para vocês que depois de tantos anos tremendo na frente de um volante consegui estacionar um carro?

11 Agosto 2011

Perdoai as nossas ofensas

Se pararmos para pensar, vamos perceber que as maiores atrocidades da história foram todas cometidas em nome de um bem maior. Foi em nome de um bem maior que os judeus sofreram o que sofreram, foi em nome da soberania de uma religião que uns caras enfiaram um avião num prédio, foi por proteger alguém que nós, que não temos tantos poderes assim, mentimos.

Claro que mentimos por maldade, por vezes. Mas ninguém gosta da mentira. O seu organismo não sabe reagir muito bem quando você conta uma mentira. Para todas as suas células, você está ficando vulnerável. Mas mesmo assim, somos impelidos a fazer esse vil ato quando achamos que a pessoa não precisa (ou não pode) saber da verdade.

Normalmente, nosso primeiro pensamento é subverter a pergunta. Não mentir, mas também não contar a verdade. Se a pessoa insiste, mudamos de assunto sutilmente. Se a pessoa insiste mais ainda, mudamos de assunto como um elefante dança lambada numa loja de cristais. Se a insistência permanece, mentimos. E não, isso não justifica nada. Mentimos para nos proteger também. Para nos proteger da culpa que é magoar alguém que não fez nada de mal para a gente. O pedinte implora por um trocado e você diz "Hoje não dá". Esse hoje se repete todos os dias. Mas nos alivia dizer "só hoje serei cruel e não ajudarei esse pobre coitado a se alimentar ou se drogar, o que for mais importante para ele".

Minhas mentiras não são bonitas, não estão aqui em nome de um bem maior como fim. Podem até ter um bem maior envolvido, mas é um meio. O fim é não me sentir culpado por magoar ninguém. Já fizeram isso comigo muitas vezes, eu faço com outros, esses outros já devem ter feito com alguém. O problema é um fator de risco que as vezes explode e vaza na sua cara: Ser desmascarado.

Se você quer mentir, tem que se preparar para mentir o tempo todo. 24/7. Um pequeno descuido e você - que achou que não estava sendo observado - fica de cuecas, com a calça na mão, na frente de todas as suas tias-avós. E aí, a pessoa que você quis proteger está magoada. E não apenas isso, ela agora TEM o direito de ficar com raiva de você, e pode usar (para ela mesma) a desculpa do "ele mentiu" para ficar com mais raiva ainda, apesar da raiva maior ser outra, a que ocasionou a mentira.

Não sei se desculpas adiantam num momento desse. "tudo que fiz foi para te proteger do perigo maior que é você". Mentira, tudo que quis era não ter o ônus de carregar a cruz do sofrimento de alguém. Foi o equivalente as apostas do "O dobro ou nada". Pois então, deu "dobro". Agora só resta o tempo que deixa tudo ficar mais leve.




11 Julho 2011

O Roteiro

Apenas a luz da penteadeira no camarim. ele gostava de se preparar assim. Naquela luz baixa, ele tentava preparar sua maquiagem da forma mais alegre possível, para quando todas as luzes fossem fritar seu rosto a maquiagem estivesse mais deslumbrante ainda. Se desse certo na luz baixa, daria certo em qualquer luz. Passou a base branca, desenhou os detalhes dos olhos e dos lábios. Aos poucos, deixava de ser quem era e ia se transformando num Clown Shakesperiano. Enquanto retocava os olhos, repassou aquele texto. O texto era só dele, o roteiro só dele, e ele já havia feito tantas vezes aquele personagem que não errava uma linha sequer. Aquela era a sua peça, seu monólogo diante da platéia.

Colocou o figurino. Se olhou mais uma vez no espelho, aquele mesmo espelho de antes, aquele mesmo camarim. No espelho, aquele mesmo rosto, aquela mesma expressão que sabia falar o seu texto. Não era magistral, mas era seu.

Deixou o camarim e deu os mesmos 25 passos até a sua habitual entrada em cena pela esquerda. Cortina fechada. Não vê ninguém, mas ouve a campainha tocando. O cheiro da poeira das cortinas, o mesmo cheiro de mofo das cortinas. Quando foi a última vez que limparam essas cortinas? Não sabia. Talvez nunca. No outro lado da coxia, observava a sombra de uma figura diferente, que não fazia parte desse seu ritual. Quem seria? Talvez a moça do almoxarifado tinha esquecido alguma coisa ali e estava buscando. O sinal, mais uma vez.

Foi ao meio do palco, esticou os dedos e braços, se alongando. Ficou na ponta dos pés. Fechou os olhos, abaixou a cabeça e expirou fundo. Havia uma presença ali, mas ele não sabia de quem.

O texto decorado, o mesmo texto. As primeiras palavras já carregadas na boca como balas num calibre 38. Anos e anos fazendo aquilo. O terceiro sinal, a cortina se abre. Aplausos. O mesmo cenário vazio. Só ele. Ele contra a platéia. E de repente o baque.

Foi um barulho seco, grave, um susto. A platéia fez "oh', um "oh" mais do que "oh", foi um dos tons mais diferentes do mundo. Ele olhou para o lado. Uma moça havia caído, tropeçado nas cortinas e tombado dentro da cena. A platéia já havia visto, o mundo inteiro já havia visto. Só ele não sabia muito bem o que era. Só tinha certeza de uma coisa: Desde que aquela menina tropeçou e entrou em cena, aquele roteiro não fazia mais sentido algum. Aquele texto todo, anos e anos decorado, não tinha sentido algum mais a partir do momento que ela, ainda caindo no chão, entrasse na peça sem querer.

Mas o show não podia parar. Ele sabia que era preciso improvisar


13 Junho 2011

Oldgirl (Carta Aberta para Gilberto Braga)

O meu filme favorito se chama Oldboy. É de 2003, é uma produção sul-coreana baseada num mangá japonês que nunca ouvi falar e nem li, só conheço a versão do filme. Pretendo nunca achar o mangá, não quero estragar o melhor filme da minha vida.

Oldboy é uma história sobre vingança. Montada e planejada por toda uma vida. Uma narrativa estonteante. Um final lindo. Enfim, acho que vocês deveriam assistir, mas é só minha opinião.

***

Acompanhei "Celebridade" de Gilberto Braga. Parava o que estava fazendo para assistir. Acompanhava capítulo por capítulo. Me deliciava com Darlene, Renato Mendes e Laura Prudente da Costa. Já "Paraíso Tropical" eu não lembro nem da abertura, não lembro de cena alguma e só lembro que tinha um Olavinho e uma Bebel. Estou falando sobre isso para explicar que minha atenção para "Insesato Coração", a atual novela do Gilberto Braga, é algo entre essas duas novelas. Não paro para ver, mas se não estiver fazendo nada eu vejo. É claro que isso deixa alguns furos na trama para mim, mas mesmo assim gostaria de fazer um pedido e explicar os motivos desse pedido ao autor.

Me encanta como nenhuma outra a personagem vivida por Glória Pires, a Norma. Ela era a boazinha, que foi enganada pelo Léo (Gabriel Braga Nunes), por uma outra amiga, comeu o pão que o diabo amassou na cadeia com a Cristiane Oliveira fazendo o papel de Araci e agora livre, parte em busca de vingança contra o homem que não só roubou uma grande quantia em dinheiro colocando a culpa nela como também ainda a desprezou, e riu da cara dela, dizendo "Você acha mesmo que alguém poderia se interessar por você?".

Pois Norma saiu da cadeia, conseguiu algum dinheiro, arrumou uma aliada e começou a investigar a vida de várias pessoas que cercavam a vida do Léo. Para conseguir mais poder e dinheiro, conseguiu encantar um velho milionário, o Teodoro vivido por Tarcísio Meira. Quando soube que Léo iria casar no dia seguinte com a herdeira milionária Marina Drumond, Norma se desesperou. E numa das cenas mais bonitas que eu vi em novelas, possuída pelo ódio encharca uma toalha molhada no peito de um Teodoro já com pulmões debilitados, além de abrir todas as janelas do quarto no meio de um temporal. Ela desce as escadas e parece arrependida do que fez, mas o estrago era irremediável já. Ela chama a ambulância e mesmo assim Teodoro morre no hospital. Agora dona da grana, Norma tem a faca e o queijo na mão para derrubar Léo do sonho dourado de viver na Mansão Drumond.

A Norma me encanta tanto como me encantava a Laura Prudente da Costa. As duas viveram processos semelhantes, mas a diferença é que no início da novela a Laura já estava com sua vingança planejada. E é só por isso que ainda vemos Norma com certo amor: Nós vimos tudo que aconteceu com ela. Mas no fundo no fundo, os dois desejos de vingança são dignos de certa forma.

Mas a gente nunca pode se esquecer que estamos falando de uma novela, uma obra que começa sem final definido e que está condicionado a alterar em caso de mudanças após a leitura de curvas de audiência, pressão de diretores, questões morais e etc etc etc. Laura foi morta. E em uma outra novela que prometia ser espetacular, "A Favorita", o plano era não contar ao público quem era a mocinha e quem era a vilã até o fim da novela. Mas o público da novela não conseguiu engolir, não tinha para quem torcer. E a ideia fantástica de não saber quem era a mocinha foi abandonada no meio, fazendo nascer a psicopata Flora.

Meu medo é que as pressões externas da trama façam com que de alguma forma Norma não mate Léo no final da novela. Pode ser que Léo até morra, mas em algum acidente fugindo de alguém. Para o público médio, isso será um acerto de contas: Léo perde o jogo e Norma não suja as mãos. Mas o meu apelo para Gilberto Braga é que não exista outra opção para o fim da Novela que não seja Norma matando Léo. Ela e somente ela tem o direito de escolher entre a piedade e a morte e preferir a morte. Ela podia, de arma em punho, lembrar para Léo de quando ele disse "Você acha que alguém ia se interessar por você?". Norma já se envolveu com a morte de duas pessoas, já sujou as mãos. Descobrir piedade nesse meio tempo seria um crime contra a história que ela vem construíndo.

Acho que falo não só por mim que o Brasil precisa menos de bons exemplos e mais de desejos realizados. Em nome de Laura, Gilberto, não faça a iminente morte de Léo acontecer em vão.

30 Maio 2011

Enciclopédia das Mentiras Socias - Parte 2

#4 - "Chego em cinco minutinhos": O mais interessante dessa maravilhosa tentativa de "não coma meu fígado quando eu chegar" é a aplicação do substantivo "minuto" no seu diminutivo. Como todos sabemos desde Albert Einstein (que era uma espécie de Professor Beakman para adultos), o tempo é relativo. Então essa sugestão Freudiana nos faz ver os longos trezentos segundos de uma forma mais amena, curta. Se fosse real, seria possível chegar em cinco minutos em QUALQUER LUGAR do mundo, e não só o problema de transporte público seria resolvido como o livro "A Volta ao mundo em 80 dias" seria um post de blog chamado "A volta ao mundo em 5 minutinhos".

#5 - "Tudo vai melhorar, você vai ver": Sim sim sim, claro que vai melhorar, é por isso que o aquecimento global só melhora, a inflação do Brasil só se estabiliza, a FIFA cada vez mais é um espaço de pessoas honestas. Claro que tudo vai melhorar.

#6 - "Nada não": É quase um "Avada Kedavra" para relacionamentos. Em 99% dos casos é proferido por uma mulher, embora alguns homens sabiam com maestria dominar essa técnica. Quando você ouve um "Nada não", você sabe que fez merda, você sabe que está perdido, você sabe que precisa consertar as coisas de qualquer maneira e... você não faz a mínima ideia do que fez de errado, então não sabe por onde começar. Quando um "nada não" é proferido para você, é como se você fosse automaticamente levado para uma ilha e seu relacionamento fosse decidida num episódio de Survivor. O interessante é que a mulher faz isso exatamente para que você atire para todos os lados para compensar: Um jantar mais refinado, lavar a louça dela, comprar um anel bonito e 40 minutos de oral a mais. E na verdade tudo que se precisava era explicar que aquela menina de shortinho curto e top rosa que te adicionou no Facebook é sua prima. ("Nada não", foi o que proferiu Nakeshi Yamamoto, irritada com o seu namorado, quando ele perguntou o que tinha acontecido. Era Hiroshima, 1945)

Se vocês querem uma dica sobre o "Nada não", eu posso ensinar, mas vale ouro e as mulheres não podem saber que já descobrimos a solução, pois se elas souberem podem criar algo ainda pior que o "Nada não" e se for algo pior, eu não quero imaginar o que pode vir. Mas então, você mulher pare de ler esse post e você homem deposite 15 reais na minha conta corrente.

Agora que todos já fingimos que isso aconteceu, eis a solução: Nada. Isso mesmo, se "não está acontecendo nada", podemos continuar a vida normalmente sem precisar compensar nada, já que... não tem nada. Funciona que é uma maravilha.

01 Maio 2011

Motivos que me fazem um completo desastre na cozinha

Desde o berço: Eu não sei como se criam crianças hoje em dia (o tempo de crianças aqui em casa acabou quando meu irmão chegou bêbado de uma briga numa festa de 15 anos), mas o fato é que nunca fui encorajado a chegar muito perto do fogão. Pelo contrário, era só um "sai daí menino, volta para o seu videogame, vai se queimar!" (ah, meu Master System). As meninas no meu tempo eram permitidas ficar mais perto dos fogões e do preparo das coisas, mas acho que elas só faziam isso esperando a invenção da Twitcam, estamos falando da minha infância, então estamos falando dos 4 Trapalhões vivos.

Essa coisa de que "menino não precisa cozinhar" me levou a falta de prática, o que me levou para o segundo item:

Medidas filosóficas: "Vó, como se faz esse suflê?" "ah, é farinha, ovo, sal...". "Mas quanto de cada coisa, vó?" "Ah, você vai vendo". A minha avó (a e sua) passou 60 anos "vendo" a quantidade certa, enquanto eu, que nunca pilotei um fogão, vou com esses ingredientes achar a proporção de uma massa nuclear que gerará um buraco negro e me faria ganhar o Nobel da Física, se não fosse o Nobel e o mundo tragado por tal buraco. Vamos combinar que cozinhar significa colocar coisas no fogo e tirar qando parecer bom. E esse 'parecer bom' é algo que só é alcançado após muita meditação zen. O motivo desse post foi porque fui fazer um Cremogema e estava lá seguindo com louvor a guia da caixinha, quando achei que estava muito ralo e coloquei mais do pó. Então de repente a mistura foi engrossando (em 10 segundos, juro) e bom, estou aqui saboreando um Flan

Uma pitada de sal? Pitada de quem? Meus dedos são bem maiores que o dedinho da vovó. Afinal, qual é a pitada padrão? Voltamos para a era em que as medidas mudavam quando mudavam o rei? Preciso pedir os dedos da Elizabeth II? Ainda sonho com um livro de receitas feito por cientistas, com medidas exatas de cada coisa. 23,45 g de farinha de trigo; 12 mol de NaCl (vulgo 'Sal')

Sadia: Em 1996 finalmente eu, meu pai e meu irmão morávamos sozinhos. Meu pai trabalhava e meu irmão fazia a escola em tempo integral. Durante a manhã, no alto dos meus 11 anos de idade, eu permaneci sozinho até o tempo do meu pai arrumar uma doméstica. Aí no primeiro dia ele me mostrou uma caixa no freezer e mandou fazer 11h. Gente, sério, que mágica foi abrir, colocar no forninho e tirar depois de 40 minutos o strogonoff de frango da Sadia, prontinho e delicioso. E depois a Lasanha, e depois o Yakisoba, e depois... Ad Infinitum. Só não pedi a Sadia em casamento porque ela não sabia fazer boquete

21 Abril 2011

Enciclopédia das Mentiras Socias

#1 - "Melhor a gente não ficar porque somos muito amigos. Não quero estragar a amizade": Embora seja empregada por alguns homens, essa frase é uma típica fuga feminina que tem como objetivo não magoar aquele seu amigo legal porém feio. Ele é um cara bacana, você se diverte com ele e ele é uma boa fonte de homens interessantes às vezes, não tem porque você magoar o sentimento do rapaz assim, de uma maneira fria e cruel. Aí você sapeca essa. Algumas mulheres realmente acreditam nisso, mas espere só aquele amigo mais bonito que você resolver cruzar a linha. Tiro e queda. "Ai meus deus ele está dando em cima de mim, não posso ficar com ele, somos muito amigos mas olha só todos esses músculos e olha esse rosto lindo...". Quanto mais você parecer o Rodrigo Santoro, menos sentido essa frase vai fazer na cabeça da sua amiga. A mente feminina pode arrumar mil desculpas para ela mesma, usando coisas do tipo "Eu tinha bebido ele também", a clássica "não busquei isso, mas foi tudo tão de repente..." e a fatalista e top top "Aconteceu". Isso, aconteceu assim como as Torres Gêmeas, o Tsunami e a carreira musical da Paris Hilton. Já vi meninas pegando caras que diziam que eram "como um irmão para mim". O irmão bonito praticou um incesto, o irmão feio não teve nem fechadura para olhar.

A próxima vez que você ouvir essa frase, não duvide: Ela é muito sua amiga sim, mas também te acha feio.

#2 - "O problema não é você, o problema sou eu": A pura essência da retórica masculina, que ao mesmo tempo que não quer quebrar nenhum coração acha que todas as mulheres tem o QI abaixo de 30.

Realmente, o problema não é você, o problema sou eu. Sou eu achar que você é chata, sou eu achar que você é feia, sou eu achar muito complicada essa sua repulsa ao boquete, sou eu achar que essa sua falta de higiene não combina muito com minha ideia de nunca participar de um filme do Jackass, etc etc etc.

#3 - "Eu não ligo para o dinheiro": Essa é 100% feminina. Pode parecer machista e tal, mas elas ligam para dinheiro sim. E não, elas não estão erradas nisso.

Embora você ache que a sua missão na Terra seja sei lá, jogar futebol toda quinta com o pessoal do trabalho, colecionar selos ou reassistir o final de LOST até ele ficar bom, os seus genes (e os dela) só tem uma missão aqui: Procriar. E afora todo o ato de conceber uma vida, existe aquele desafio de criar o pimpolho que envolve um curto período que vai desde o nascimento do rebento até o moleque ser preso pela primeira vez e fazer você desistir de vez do rapaz e lamentar da época quando você tinha 25 anos e o SUS ainda não cobria vasectomia gratuitamente (desculpa pai, não vai acontecer de novo).

E os nossos genes ainda tem esse pensamento meio Australopithecus de que o bom homem é aquele que traz o maior mamute para assar na caverna. Do maior mamute ao maior bicho de pelúcia, só mudou a representação. Você não quer sombra e água fresca - eu sei, o mundo mudou e sutiãs foram queimados - mas você não quer também chegar em casa cansada do escritório e fritar salgadinhos para conseguir uma renda exta, não?

(Aguardando sugestões para frases)

23 Março 2011

Jesus Cristo BBB

Assisti o primeiro BBB. Assisti, assisti. Não torci, não procurei nada e tal. Mal vi o segundo. Passei reto entre o terceiro e o décimo. Comecei a assistir o décimo-primeiro. E ontem, pela primeira vez em onze anos, me vi comemorando o resultado de um paredão.

É meio esnobe dizer que não vi os outros BBB's citados. No Brasil, você não pode fugir deles. Arrisco até que saberia citar todos os campeões na ordem. Mas enfim, nunca me interessou porque primeiro achava repetitivo e segundo nada que passa por uma edição pode ser chamado totalmente de reality. Você tem o 24 horas, tudo bem, mas o grosso do público (e consequentemente o grosso da votação) acompanha a edição com cortes e tomadas. Se você já viu trailers alternativos de filmes, como Mary Poppins como filme de terror, sabe que torturadas nas mão de um hábil diretor, as cenas podem dizer qualquer coisa. E eu lembro bem de uma entrevista que o Boninho deu para a Revista Veja, de que "se o público acha uma coisa, eu edito mesmo para parecer isso". Não sei se é falsidade ou ignorância, mas na verdade tudo começa primeiro pelas mãos dele.

Isso posto, vi que Marcelo Dourado ganhou o décimo BBB. E ganhou porque se posicionou de uma forma extremamente conservadora. Contra gays, contra um monte de coisas. Ele diz que não, mas verdade ou mentira. As pessoas que votavam nele estavam votando em um símbolo do conservadorismo. Até acho que ele não queria bandeira nenhuma, só queria o milhão e meio que deixou escapar em 2005 (2006? 2004?), mas o fato é que a "Máfia Dourada"o elegeu como Totem e assim foi. Sua vitória foi muito falada no exterior, como símbolo do atraso do reconhecimento dos direitos dos gays no Brasil.

Nessa edição, parece que com medo do que uma nova vitória do conservadorismo poderia causar, Boninho parece que escolheu pessoas muito diferentes do perfil da Máfia Dourada. São pessoas que nunca poderiam ser protagonistas de novela das oito, se fossem personagens, mas que o público do BBB (que é o mesmo da novela) teria que engolir. O Gay assumido, o Gay, latente, o Gay reprimido, a Gordinha safada, a "Modelo e Atriz" que já fez programa, a Lésbica chique, e a maior personagem de todas, a transexual Ariadna, que foi eliminada na primeira semana sob a alegação que sua postura de esconder sua condição foi o que determinou sua saída. Engano. No Brasil, você não pode ser íntegro e mudar de sexo ao mesmo tempo, você precisa ser uma pessoa sem caráter para mudar a natureza que Deus lhe deu. E a linda Ariadna foi tirada da casa praticamente a pontapés pela sociedade. A história parecia se repetir.

Nessa reta final, o oposto a esse grupo era o tal Rodrigão. E hoje, ele foi alvo de uma mega campanha que incluíram até movimentos sociais. Assim como Dourado ganhou por algo que não defendia com o coração, Rodrigão perdeu por algo que não defendia com o coração. Mas foram os símbolos, os Totens eleitos para representar certos ideais.

Nesse meio tempo, sobrou um improvavel novo favorito, que poderia muito bem ser o campeão. E talvez com a saída de todos os "corretos", seja o mais próximo disso. Falo de Wesley, que os mais consevadores podem enxergar como messias nesse BBB

Wesley é um exemplar peculiar de homem. Pode ser que não seja assim na vida real, mas todo homem deveria tentar ser a imagem que Wesley mostra. Tal qual Jesus, ele caminha no meio dos "errados"; Daniel se corta e o Doutor vai lá e faz um curativo de verdade, tal qual um Jesus curando os leprosos. Tem a sua própria Maria Madalena, a dita prostituta que querem apedrejar e que já o colocou no paredão. Na hora de escolher quem deveria ser perdoado, Wesley deu a outra face e votou em Maria para a salvação, sem remorso e sem vingança. Foi negado não três, mas cinco vezes, e mandado ao paredão. teve a sorte de não ser protagonista de nenhum. E agora, se for líder mais uma vez, chega como muito bem cotado para a final.

Tenho amigas que BBB bom tem barraco. Eu discordo. Reality tem Conflito, e barraco é um tipo de conflito. Não houve nenhum barraco entre ele e o músico Maurício, mas o conflito entre eles foi o que fez Wesley deixar de ser um mero coadjuvante. Jesus Wesley caminhou por 40 dias no deserto enquanto sua Madalena ia ter com a Tentação. Wesley foi paciente e sempre se mostrou ali, disposto. O que podem julgar como afinar, foi na verdade um gesto de respeito que talvez Maria não estivesse acostumada na vida.

E talvez assim, por agradar tanto os gregos conservadores e os depravados troianos, Wesley ganhe força nessa reta final, já que quem gosta dos outros três, geralmente gosta dos três como um todo e não de apenas um, o que dilui os votos.

06 Março 2011

O Clube

Você.

Sim, é com você mesmo que eu estou falando.

Eu tenho um lugar para você. Você não está só, existem outros, muitos outros iguais a você. Existe um lugar que você pode ser aceito como um igual, onde você não parecerá um alienígena perto desses seus amigos cheios de autoconfiança e de palavras seguras e verdades absolutas.

Um lugar para você que chega 17h30 num encontro, e já fica achando que a pessoa te deu bolo, mesmo tendo marcado 18h com a pessoa. E vai achar isso por 45 min, pois a pessoa é normal e vai aparecer por volta de 18h15, o que te fará mais tenso ainda. Um lugar para você que um dia antes de um passeio a pessoa te lembra de avisar que começou um curso a uma semana. E você fica tentando advinhar se ela lembrava de avisar ou foi só porque você precavido com o horário resolveumarcar uma hora exata coma pessoa.

Temos um espaço para você que fica tentando ler uma pessoa em cada gesto, em cada sorriso e em cada arrumada de cabelo. "Esse é o gesto que ela faz quando se irrita? Será que ela se iritou? Estou a irritando? Ou pior, nem isso estou conseguindo? Estou nem conseguindo causar uma irritação? Sou tão inútil assim?". Esse é o espaço de quem não sabe se está causando química ou não. Ou que precisa de um lugar especial para isso, e percebe que não é ninguém numa lanchonete qualquer.

Temos pessoas aqui iguais a você, gente boa demais para que se diga "não" na cara delas, gente fraca demais para que se diga "sim". Filhos do limbo. Meio-termo, aqui me tens de regresso. Você, que as pessoas julgam que não merece sofrer, mas que não merece um beijo. Você não está só nesse mundo, estamos falando sério. Outras pessoas ouvem como você "o problema não é você, o problema sou eu". Outras pessoas ouvem que nem você que são lindas, maravilhosas e super interessantes, bem diferente dessa maioria seca, vazia e idiota que tem por aí. E essas pessoas assim como você percebem que esses secos vazios e idiotas estão abraçados com alguém enquanto você está forever alone. Eles nunca estõa só, enquanto você ouve que a pessoa tem outras prioridades na vida.

Vocês podem partilhar algo em comum: O quanto acham que estão sempre a uma frase de dizer algo que acabará com a noite, como acham que estão a um passo de derramar a cerveja, estão a um passo de uma manada de búfalos atravessar a sua mesa de bar. Você e elas podem falar do trabalho de garimpeiro que é reunir coragem o bastante para se buscar as coisas que se deseja. Vocês podem se divertir com um joguinho: contar quantas vezes ouviram um "mas..." depois de um "Adoro você", "Você é muito legal", "Você é muito lindo". As únicas certezas da sua vida são a morte, os impostos e que sempre haverá um "mas...".

Vocês podem conversar e achar correlações nas desculpas esfarrapadas que as pessoas usam para te dar bolo. Deve ser interessante achar um padrão. Descubram que todos vocês poderiam ter a alcunha O FOFO.

Seja muito bem-vindo ao clube dos solteiros tensos. Sinta-se à vontade.

Afinal, o problema não é você, não é isso?

08 Fevereiro 2011

Cojones

O Domingo começou triste para mim. De ressaca e terminando um relacionamento de 4 anos. E o pior, sem ter o que fazer, estando longe até Julho e sem ter a mínima coragem de cogitar uma segunda chance. Segunda chance em tudo. "Isso é um assunto que se encerra para mim".

Pelo menos naquele dia um uruguaio iria me dar uma grande lição. Um uruguaio que já admirava e aprendi a gostar ainda mais. Estava lá para torcer por ele e por outros 10 no Engenhão

Seu nome é Washington Sebastián Abreu Gallo e seu apelido mais do que aplicável é Loco Abreu. Tem 34 anos, já defendeu 18 clubes na sua carreira e tem uma camisa que usa por baixo das camisas do clube como um talismã cheia de fotos dos filhos e outras lembranças, onde só existem os escudos de dois desses 18 times: O Nacional do Uruguai, seu clube do coração, e o Botafogo Futebol e Regatas do Rio de Janeiro, o meu clube do coração.

Loco Abreu não tem a habilidade de Ronaldinho, a arrancada de Ronaldo dos melhores dias, a força de um tanque de Adriano, a genialidade da pequena área do Romário... Loco não precisa dessa categoria. Ele é grande por seu estilo próprio. Poucos jogadores tem um estilo próprio (Ronaldinho é gênio e um dos melhores do mundo com certeza, mas seu estilo é do Garrincha). Na verdade, quando chegou ao Botafogo ouvi muitos falando que ele era um bonecão de Olinda desengonçado. Olha, é verdade, mas é um boneco de Olinda que sabe aproveitar as oportunidades.

No ano passado, um repórter revelou em blog a seguinte história: Loco Abreu estava na Polícia Federal brasileira tirando seu visto de trabalho, pois tinha acabado de ser contratado. Uma policial botafoguense foi falar com ele, pedindo o título estadual, pois os botafoguenses estavam precisando, já eram 3 anos seguidos batendo na trave e para o mesmo time. Abreu simplesmente respondeu "É que El Loco não estava aqui". Quando foi escolhido, um dos argumentos de um diretor do Botafogo foi a seguinte: "Abreu é para as finais. Ele não sente".

E na final do campeonato daquele ano, Loco Abreu provou que não sentia as finais. Já havia batido alguns pênaltis ao longo do campeonato, mas nenhum com a tal cavadinha que ele faz algumas vezes, inclusive numa semifinal de Copa América contra o Brasil. E escolheu sua primeira final de campeonato pelo Botafogo para usar a arma que sabia. O goleiro assassino, que havia pego tantos pênaltis alvinegros ao longo dos 3 últimos anos, viu do chão a bola raspar a trave e cair no fundo das redes. Loco em vez de comemorar, não conseguia segurar uma sonora gargalhada, enquanto apontava para a torcida do Flamengo. Se essa loucura tivesse dado errado, ele seria reserva até hoje. Mas Loco não tem medo dos riscos e se tornou um ídolo por acaso de um departamento de Marketing que fez de tudo por Maicosuel.

Neste Domingo, durante um Botafogo x Fluminense, com o time perdendo, Loco foi cobrar a bola. O goleiro Diego já esperava a cavadinha, e ficou parado. Apenas levantou os braços e segurou a redonda. E - pior dos pecados - tentou intimidar El Loco fazendo um gesto de "menos, Abreu, menos". Mas Loco tem estrela, sabe aproveitar as oportunidades que a vida dá. Sua estrela é tão forte que menos de 5 minutos depois o juiz deu outro pênalti ao Botafogo. E Loco Abreu chamou a responsabilidade para si. Eu, dali da arquibancada, havia dito para a pessoa que estava comigo que era o "Fim da Magia da Cavadinha".

Mas Washington Sebastián Abreu Gallo, conhecido como Loco Abreu e que não sente o peso das finais, tinha uma carta na manga. Ninguém no mundo, com o time perdendo, com jogadores a menos e tendo acabado de encontrar um goleiro que tinha acabado com sua maior jogada, daria outra cavadinha.

Mas uma vez a história se repetiria. Se outra vez uma cavadinha desse errado, Loco saia direto do Engenhão para Montividéo, via Galeão. Mas Loco não teve medo. Fez o que ninguém faria, outra cavadinha. Dessa vez no canto. Aquela segunda cavadnha foi como ficar na frente dos tanques da Praça Celestial. E o goleiro Diego, que havia pedido "menos" ao Loco, dessa vez viu imóvel a bola cair no fundo da rede.

E na sua comemoração, loco fez um gesto que vamos traduzir para o bom português: "Eu tenho bolas!". Sim, cojones, tu tiene cojones, Loco. É isso que diferencia Loco de Um boneco de Olinda como dizem seus detratores: A Raça.

Não interessa o resultado do jogo. Aquela história era maior que 3 pontos. Loco havia me dado uma lição, no dia que eu mais precisava. É preciso ter coragem e encarar de frente todas as segundas chances dessa vida. É preciso, antes de mais nada, não ter o medo de errar.

E é preciso, antes de mais nada, querer mais humilhar o goleiro do que marcar os 3 pontos. Não basta ser gol, tem que ser de cavadinha. Só assim podemos ser ídolos e não operários da bola.

29 Outubro 2010

Os Inexistentes - Paulo e o Pênalti

Quando se tem nove, dez anos, as coisas parecem maiores do que realmente são. Um adulto olha e acha graça da importância de algumas coisas para as crianças, mas eles é que se esqueceram o quanto era bom ser criança e acreditar que aquilo que era importante. Aos dez anos Paulo estava de frente a um desses desafios que dividem águas, acontecimentos que não saem no jornal, mas que deveriam sair mais do que aquele tal de Plano Real que todo mundo falava e Paulo não entendia nada, mas serviria para um tal de FHC ganhar de um tal de Lula. O ano era 1994, Romário tinha unido a geração 80 e 90 numa inédita comemoração de Copa do Mundo e Paulo sabia que poderia fazer parte dessa conquista, bastando fazer o que tinha proposto. Pelo lado da turma 404, ele arrumando a bola na marca do pênalti. Pelo lado da turma 403, o menino mais alto da turma, fechando o gol. Obviamente, um repetente que o que sabia fazer de melhor era jogar bola. Era o último jogo do ano e a cobrança estava autorizada.

***

Paulo era o segundo melhor aluno da turma. Era bom em Matemática, ótimo em Estudos Sociais, razoalmente bem em Ciências e tinha um desempenho aceitável em Português. O melhor aluno era o melhor amigo de Paulo e era seu xará também. Esse outro Paulo, inclusive, era tão confiante e cheio de si que declarou que se um dia tirasse nota vermelha, se matava. Curioso ou não, esse mesmo menino 11 anos depois e já na faculdade tentou se matar ingerindo remédios, sem sucesso.

Mas Paulo, o nosso Paulo, tinha um ponto fraco: O Futebol. Não só o tal esporte bretão como todos os outros. Sua habilidade física se resumia a velocidade com que os seus dedos comandavam o Sonic e seu Mega Drive. seus chutes eram fracos e sem direção. Se batia de lado, a bola perdia força muito rápido. Se batia de bico, a bola perdia direção e nunca ia ao lugar certo. Sua falta de talento só não era maior porque era a 4ª Série, atual 5º ano, e o futebol não funcionava com regras muito convencionais.

Essa idade era a última antes da Educação Física ficar séria naquele colégio. Era o último jogo sem muitas regras. Só tinha linha de fundo: Se a bola batesse na arquibanca lateral, tá valendo. Os jogadores tinham que estar em números iguais para cada lado, e tá valendo se forem 7 contra 7, 11 contra 11 ou 13 contra 13. Substituições ilimitadas e sem parar o jogo. Toda a praticidade que só as crianças conseguem fazer. E era sempre o time da 403 contra o time da 404.

Ninguém ficava contando as vitórias de cada lado ao longo dos anos. Então esse era o último jogo, onde tudo se decidiria. Tudo o quê? Não sei, mas tudo se decidiria.

Paulo assistia muito Apito Final na Bandeirantes, e tinha visto uma entrevista com Marcelinho Carioca, que explicava que bater na bola precisava ser assim, assim e assim. Se for para bater forte, nem tanto com o bico, tente usar um pouco os três dedos e... e Paulo foi movimentando o pé de acordo com que o entrevistado falava. Não tinha uma bola pesada para treinar isso, mas numa bola de plástico viu que dava certo. Só que vivia num apartamento e não tinha como criar um gol para ver se a pontaria estava certa.

Paulo não era popular, bem longe disso. Mesmo no meio daquela zona, era nítido e notório sua falta de talento com os pés. Tinha apelidos feios e não conseguia falar com as garotas. Não desejava todas, mas desejava que todas o desejassem. Queria ser aceito e decidiu bater o pênalti. Imaginou que com a cobrança, a vitória no último jogo significaria a vitória no ano, a redenção.

No começo do jogo, Paulo usou de toda a retórica e argumentos existentes para dizer que era o cobrador oficial daquela partida: "Hoje eu que bato pênalti, pedi primeiro!". Uns riram, outros ignoraram. Começou a partida. Logo no primeiro chute, a bola foi isolada para o prédio das turmas mais novinhas e demorou a recomeçar. A partida estava mais dura que o normal, e Paulo se limitava a se postar na entrada da sua área e chutar para a frente (ou algo próximo disso) toda bola que vinha. Na frente, André, o craque da turma 404, tentava sem sucesso acertar um chute a gol. Numa cobrança de escanteio, Paulo foi a área adversária para tentar cabecear. A bola sobrou no alto para ele.

Paulo esticou a cabeça e... a bola subiu de novo em vez de ir para a frente, ficando fácil para as mãos do goleiro, o menino mais alto de todos. Mais um lance bizonho para um jogo que a turma 404 perdia por um gol. O último jogo do ano e eles estavam prestes a levar a derrota por todo o verão no hemisfério sul. Faltando 10 minutos para acabar a partida, André passou por um e cortou a bola para a direita na entrada da área. Chutou com toda a força que podia e a bola bateu no braço de um zagueiro afobato que se jogou na frente de qualquer maneira. Num jogo sem juiz, quando o outro time nem contesta o pênalti é porque não tem desculpa.

Uma bolo de garotos começou a discutir quem bateria o pênalti. Paulo pela primeira vez estava naquele bolo, gritando argumentos plausíveis e lógicos. "Eu pedi primeiro! Eu pedi primeiro!". E foi André, o craque do time, o primeiro a defender a cobrança de Paulo, para protesto geral. "Ele não! Está louco!". Aos poucos, foram aceitando, os primeiros a concordar eram os piores jogadores, junto com os mais sacaneados e zoados da turma. As crianças não tinham noção, mas aquilo era mais ou menos como um grito de basta, pelo fim da lei da Selva na 404. André olhou para os melhores jogadores e disse: "Todo mundo aqui já bateu um pênalti e o moleque não fez nenhum gol. Deixa ele ter a chance dele". E das mão do craque FIFA do ano (se a FIFA olhasse para aquele pacato colégio no Cachambi), Paulo recebeu a bola e arrumou na marca da cobrança.

Se lembrou do ano que teve, pais separados, brigas intermináveis, sendo acordado pela mãe bêbada de madrugada. E o pior, nenhum gol. Ninguém o abraçou, ninguém veio comemorar com ele algum mérito seu. Nem ser bom aluno servia, havia um melhor, que ele se sentia culpado de ter ciúmes, já que era seu melhor amigo. Não era nem perto de ser o mais bonito da turma e as meninas não sorriam para ele com medo de ouvirem que estavam apaixonadas por ele. Mas Paulo, por um breve instante nos momentos que antecederam a cobrança, era o garoto mais importante de toda 404, que é como se fosse um país naquele mundo-colégio.

Paulo olhou fixamente para o canto que queria bater e se lembrou dos chutes naquela bola de plástico bem mais leve do que a bola do colégio. Seria preciso bem mais força, mas será que ele conseguiria a força suficiente? Será que ele conseguiria a pontaria necessária? A cobrança foi autorizada, já que não havia juiz, mas havia os gritos de "vai!". E Paulo foi.

Nunca antes na vida dele a bola seguiu com tanta perfeição ao lugar que Paulo queria, e numa velocidade impressionante para os outros chutes de Paulo. Ele deixou o pé mais vertical possível, bateu com a parte de cima dos dedos e tinha mirado bem antes do chute. Paulo usou toda a técnica possível de chutar de um jogador profissional de futebol. Mas Paulo não sabia usar toda a malandragem de um jogador profissional de futebol.

O goleiro da turma 403, que era repetente e não sabia fazer outra coisa na vida a não ser jogar futebol, viu que Paulo olhava fixamente para um dos cantos, e não teve dúvida em pular nesse lado com os pés, jogando a bola para escanteio. Gritos de alegria da turma 403, e do lado da 404 Paulo conseguiu ouvir um "Eu sabia!". Ainda nesse escanteio, André pulou forte no segundo pau e fez de cabeça. Um a um e o jogo terminou assim, menos para Paulo, que perdeu de goleada.

Na volta para a sala de aula, para arrumar a mochila e ir embora, só voltando na segunda para a última semana de provas, ninguém falava com Paulo. De certa forma, muita gente queria o gol, e ficaram decepcionados com a não-realização do objetivo. Paulo olhou para o crucifixo no corredor daquele colégio religioso e perguntou "Por quê?". Não obteve resposta. Nunca obteve resposta. Arrumou sua coisas e saiu. Queria ser Romário, mas saiu do colégio com o mesmo semblante que Roberto Baggio deixou no Rose Bowl em Pasadena, 4 meses antes.

No ano seguinte, quando a aula de Educação Física passou a ser minimamente séria e os times eram montados na escolha de dois capitães, Paulo sempre era o último a ser escolhido.

27 Outubro 2010

Os Inexistentes - Renato e a Coca-Cola

Depois de uma intensa sessão sexual, Amanda pediu uma garrafa d'água para Renato, do frigobar daquele motel na Lapa. Renato voltou com a água e uma Fanta. Não tinha idéia do motivo de ter escolhido Fanta. E Amanda ao ver isso, se maravilhou. Disse que tinha uma teoria sobre homens que não escolhiam Coca-Cola, que esses homens eram mais interessantes que os outros. Eram especias e únicos, como Renato era, disse Amanda. Depois daquele dia, Renato decidiu nunca mais beber Coca-Cola na vida.

***

Renato nunca teve pressa na vida, e quando conheceu Amanda não teve pressa em conhecer. Desde que foi apresentado a ela, Renato passou 12 meses sem nem notar sua presença. Era só a namorada do amigo do amigo do antigo colégio. Ela também não se mostrava aberta a conversas. Depois de um tempo, Renato a notou de fato. Uma vez ficaram conversando enquanto ao lado o namorado dela, o amigo direto de Renato e um terceiro amigo falavam sobre música clássica, como se fossem entendidos do assunto de verdade e não estudantes de Economia. Renato e Amanda falaram sobre Pixies (que ela gostava e ele nunca se interessou tanto), sobre Los Hermanos ( que ele fingiu ser amigo para pregar uma peça), sobre novas bandas e caminhos alternativos para o Rock. Renato concordava com a tese que Strokes era um sopro de novidade no Rock e Amanda insistia que Rolling Stones nunca saiu de moda. Antes de ir embora, Renato passou sozinho no McDonald's e pediu um nº1 com Coca.

O tempo se passou e pouco se viam. Renato nada sentia por Amanda, Amanda nada sentia por Renato. Eram familiares desconhecidos, e nada mais. Ambos estavam naquele grupo de pessoas que são legais, mas não importantes na vida. Mas a vida moderna inclui os amigos e os só conhecidos no mesmo orkut, e lá estavam eles conectados numa rede social.

Amanda largou o amigo. Foi no memso lugar onde Renato a tentada convencer sobre Strokes, mas não existe nada de mágico nisso. Só faz a mágica quem tem a coragem de enfiar a mão na cartola para tirar o coelho. Isso foi apenas contingência, palavra que anos mais tarde Renato aprendeu com Amanda. E ao contrário da primeira avaliação de Renato, Amanda era uma pessoa sociável. Continuou amiga de todos os amigos do ex. Agora, ela simplesmente fazia parte.

Uma vez num acaso encontro de cinema ela disse que achava Renato um menino interessante. Ela não tinha carga de desejo nenhum nessa frase, e Renato não achou carga de desejo nenhum de volta naquele dia. Naquele dia.

Começaram a e falar por MSN, bem lentamente. desde o dia que foram apresentados, fazia mais de 24 meses que iniciaram o processo de se tornar íntimos. E mesmo com tudo diferente foi pintando de repente uma vontade de se ver... para Renato. Amanda Mônica preferia continuar gostando do Banderas e do Bauhaus, de Mutantes, Caetano e Rimbaud. Menos de Renato.

Renato iniciou o processo de tentativa, mas Renato, como vocês já puderam perceber, era lento. Ele sempre foi lento em tudo. Lento para entender certos processos do mundo e lento até para me contar essa história, que eu fui descobrindo aos poucos. Uma ano depois dessas conversas. Renato não cabia mais em si e disse num rompante de desejo que queria Amanda. Mal havia mandado essas palavras para ela, se arrependeu: Não era assim que funcionavam as convenções socias, era sinceridade demais para ser dita. Um nível de falsidade precisava sempre existir. Mas para sorte de Renato, Amanda disse que ele não precisava fugir e esconder esses sentimentos. E para o azar de Renato, Amanda amava outro.

E desde desse dia Renato se sentia com ela como o menino pego pela mãe no banheiro com as calças na mão. Havia um elefante na sala e em vez de conversar sobre isso, estavam dando amendoins para ele. Amanda era generosa, mas nunca decidiu mergulhar nessa aventura. E Renato só fazia o que sabia: Esperar. Amanda ainda gostava de um certo nível de provocação, e Renato se contentava com o que tinha.

Até que 30 meses depois da confissão de Renato e 66 meses depois de serem apresentados. Amanda cedeu. Não havia mais segredos entre eles, e ela o admirava, em sua forma. Renato se sentia especial por ser admirado por uma menina que ele julgava única, e que tinha o grave defeito de não querer ser dele. De certa forma, isso o fazia se sentir importante e quando Amanda disse para Renato o que pensava de homens que não escolhiam Coca-Cola, Renato se sentiu mais especial do que nunca.

Foram 3 encontros num quarto de motel. O primeiro beijo do "casal" aconteceu já dentro do quarto. Não era preciso joguinhos para entrar lá. Ambos se conheciam mais do que imaginavam e Amanda, observadora nata, sabia mais sobre Renato do que Renato poderia imaginar. E nesses encontros, Amanda se entregou como troféu, e permitiu a Renato que ele a usasse como quisesse, e que fizesse coisas que ele nunca fez com outra mulher. Pela primeira vez na vida, Renato se sentia tão poderoso quanto os amigos que ele admirava e julgava nunca conseguir ser. Finalmente Renato era um Rockstar, não importava que a plateia fosse de apenas uma pessoa. Aquilo era clássico como Rolling Stones e estava salvando o Rock da vida de Renato como Strokes

Mas Renato errou a mão. O que achou ser apenas 3 encontros furtivos na noite da Lapa eram na verdade agora 68 meses de relacionamento desgastado com o tempo, com uma crise dos 7 anos que chegou um pouco mais cedo. Como quem dá um doce e tira. Amanda se foi. "Você não pode dar o que eu preciso" ou alguma frase típica feminina assim que ele não soube explicar direito. Renato era mais uma vítma desse Rock moderno, que idolatra uma banda para no Grammy seguinte a esquecer. Renato virou Old News sem perceber que já tinha surgido como Old News.

Dia desses, Renato teve que passar pela Lapa, e quando deu por si passava em frente ao motel da Lapa, dos encontros e dos gemidos. Assim que passou pelo primeiro botequinho, pediu uma garrafinha de Coca-Cola e tomou de uma vez, como quem escreve uma carta de suicídio, como quem assina um atestado de mediocridade. Renato deve ter levado só uns 2 goles, para meu espanto e de outros presentes lá.

Eu, que fui entregar uma máquina fotográfica e tinha parado para comer nesse mesmo botequinho, estava ao lado dele. E foi para mim que Renato contou esse caso, e fez questão de frizar que ao menos numca chorou por ela, disse, visivelmente tenso.

Eu acredito. De fato, tenho certeza que Renato nunca tenha chorado por Amanda.

Não com os olhos.