08 fevereiro 2011

Cojones

O Domingo começou triste para mim. De ressaca e terminando um relacionamento de 4 anos. E o pior, sem ter o que fazer, estando longe até Julho e sem ter a mínima coragem de cogitar uma segunda chance. Segunda chance em tudo. "Isso é um assunto que se encerra para mim".

Pelo menos naquele dia um uruguaio iria me dar uma grande lição. Um uruguaio que já admirava e aprendi a gostar ainda mais. Estava lá para torcer por ele e por outros 10 no Engenhão

Seu nome é Washington Sebastián Abreu Gallo e seu apelido mais do que aplicável é Loco Abreu. Tem 34 anos, já defendeu 18 clubes na sua carreira e tem uma camisa que usa por baixo das camisas do clube como um talismã cheia de fotos dos filhos e outras lembranças, onde só existem os escudos de dois desses 18 times: O Nacional do Uruguai, seu clube do coração, e o Botafogo Futebol e Regatas do Rio de Janeiro, o meu clube do coração.

Loco Abreu não tem a habilidade de Ronaldinho, a arrancada de Ronaldo dos melhores dias, a força de um tanque de Adriano, a genialidade da pequena área do Romário... Loco não precisa dessa categoria. Ele é grande por seu estilo próprio. Poucos jogadores tem um estilo próprio (Ronaldinho é gênio e um dos melhores do mundo com certeza, mas seu estilo é do Garrincha). Na verdade, quando chegou ao Botafogo ouvi muitos falando que ele era um bonecão de Olinda desengonçado. Olha, é verdade, mas é um boneco de Olinda que sabe aproveitar as oportunidades.

No ano passado, um repórter revelou em blog a seguinte história: Loco Abreu estava na Polícia Federal brasileira tirando seu visto de trabalho, pois tinha acabado de ser contratado. Uma policial botafoguense foi falar com ele, pedindo o título estadual, pois os botafoguenses estavam precisando, já eram 3 anos seguidos batendo na trave e para o mesmo time. Abreu simplesmente respondeu "É que El Loco não estava aqui". Quando foi escolhido, um dos argumentos de um diretor do Botafogo foi a seguinte: "Abreu é para as finais. Ele não sente".

E na final do campeonato daquele ano, Loco Abreu provou que não sentia as finais. Já havia batido alguns pênaltis ao longo do campeonato, mas nenhum com a tal cavadinha que ele faz algumas vezes, inclusive numa semifinal de Copa América contra o Brasil. E escolheu sua primeira final de campeonato pelo Botafogo para usar a arma que sabia. O goleiro assassino, que havia pego tantos pênaltis alvinegros ao longo dos 3 últimos anos, viu do chão a bola raspar a trave e cair no fundo das redes. Loco em vez de comemorar, não conseguia segurar uma sonora gargalhada, enquanto apontava para a torcida do Flamengo. Se essa loucura tivesse dado errado, ele seria reserva até hoje. Mas Loco não tem medo dos riscos e se tornou um ídolo por acaso de um departamento de Marketing que fez de tudo por Maicosuel.

Neste Domingo, durante um Botafogo x Fluminense, com o time perdendo, Loco foi cobrar a bola. O goleiro Diego já esperava a cavadinha, e ficou parado. Apenas levantou os braços e segurou a redonda. E - pior dos pecados - tentou intimidar El Loco fazendo um gesto de "menos, Abreu, menos". Mas Loco tem estrela, sabe aproveitar as oportunidades que a vida dá. Sua estrela é tão forte que menos de 5 minutos depois o juiz deu outro pênalti ao Botafogo. E Loco Abreu chamou a responsabilidade para si. Eu, dali da arquibancada, havia dito para a pessoa que estava comigo que era o "Fim da Magia da Cavadinha".

Mas Washington Sebastián Abreu Gallo, conhecido como Loco Abreu e que não sente o peso das finais, tinha uma carta na manga. Ninguém no mundo, com o time perdendo, com jogadores a menos e tendo acabado de encontrar um goleiro que tinha acabado com sua maior jogada, daria outra cavadinha.

Mas uma vez a história se repetiria. Se outra vez uma cavadinha desse errado, Loco saia direto do Engenhão para Montividéo, via Galeão. Mas Loco não teve medo. Fez o que ninguém faria, outra cavadinha. Dessa vez no canto. Aquela segunda cavadnha foi como ficar na frente dos tanques da Praça Celestial. E o goleiro Diego, que havia pedido "menos" ao Loco, dessa vez viu imóvel a bola cair no fundo da rede.

E na sua comemoração, loco fez um gesto que vamos traduzir para o bom português: "Eu tenho bolas!". Sim, cojones, tu tiene cojones, Loco. É isso que diferencia Loco de Um boneco de Olinda como dizem seus detratores: A Raça.

Não interessa o resultado do jogo. Aquela história era maior que 3 pontos. Loco havia me dado uma lição, no dia que eu mais precisava. É preciso ter coragem e encarar de frente todas as segundas chances dessa vida. É preciso, antes de mais nada, não ter o medo de errar.

E é preciso, antes de mais nada, querer mais humilhar o goleiro do que marcar os 3 pontos. Não basta ser gol, tem que ser de cavadinha. Só assim podemos ser ídolos e não operários da bola.

4 comentários:

Cecília M. disse...

E além de tudo ele é gato. Passo mal com esses cojones!

Drica disse...

Eu passo mal com essa cavadinha, mas ele é O Cara. Vida longa a El Loco no Fogão.

Joana disse...

Esse Loco também me inspira e mexe bastante comigo, mas de uma outra maneira hahahahaha
Ow, maneira feliz :)

taenunes disse...

ótimo post! parabéns!