20 outubro 2011

Quinze Minutinhos

A primeira impressão ao entrar no espaço urbano de Campinas é de que estamos em uma cidade grande. É uma pequena cidade grande. Densa, porém curta. Passarei a chama-la de São Paulo Bonsai. Eu desci do ônibus e estava na rodoviária. E a rodoviária de Campinas era melhor que o aeroporto Santos Dumond. Até então eu estava relativamente tranquilo e despreocupado e o impacto de estar em um lugar novo me deixava meio distraído. Avisei da minha chegada e ela falou que só poderia chegar em uma hora e meia. Tudo bem, o que era noventa minutos para quem já esperava muito mais?

Que ela era linda eu já sabia desde agosto de 2010. Que eu deveria tentar alguma coisa com ela eu já sabia desde março, quando vi receptividade da parte dela. Que estávamos desesperados para nos vermos eu sabia desde o dia 23 de junho, data mundialmente conhecida como o meu aniversário. Noventa minutos não era nada. E de fato não foram. Puxei um joguinho do celular, e o tempo passou sem me fazer muito nervoso. A tarde ia se tornando noite no interior paulista.

Noventa e quatro minutos depois ela me liga. Pediu mil desculpas, disse que só conseguiu sair do lugar de onde estava naquela hora e que estava indo direto me encontrar. Eu calmo e serenamente disse que tudo bem e perguntei em quanto tempo ela chegava. Ela respondeu "em quinze minutinhos" e foi a partir do final dessa ligação que todo aquele meu autocontrole desde a manhã deixou de fazer qualquer efeito. Quando ela falou minutinhos com o diminutivo característico de quem não faz a menor ideia do tempo que levará eu sabia que tudo podia acontecer. E com meu espírito pessimista me dominando, considerava até que ela me olhasse por dois segundos, dissesse "é... Não" e eu já comprava da rodoviária mesmo minha volta para o Rio.

Esses quinze minutinhos (que na verdade foram 35) foram uns dos minutinhos mais tensos da minha vida. Tinha esquecido de perguntar qual era o carro dela, o que me fazia calafrios a todo e qualquer carro que passava lá. Era uma média de um carro a cada cinco segundos. Doze carros por minuto. Multiplicados por 35 minutos tínhamos entre eu e ela um total de 420 carros. Quatrocentos e vinte arrepios, já que nós do clube dos solteiros tensos não descontamos nem os taxis. Eu aguardava tanto esse fim de semana e não sabia lidar com o inicio dele.

Fiquei lembrando das nossas conversas iniciais, do medo de pisar em ovos, do medo de uma piada mais forte ser levada a sério, e esse medo partia dos dois lados. Até que uma conversa regada a álcool, esse Wikileaks dos nossos sentimentos, jogou tudo no ventilador: "o que eu queria era estar aí com você". "eu também queria". A partir daquele dia esse meu sofrimento na espera da rodoviária era só uma questão de tempo.

O coração pulava meio estranho. Ele parecia bater num ritmo normal, mas os saltos eram mais fortes. Por mais que eu goste dela e ela goste de mim, quando seria o momento certo de dar um beijo? Novamente a cartilha dos solteiros tensos vinha colocar lenha na fogueira: se fosse antes da hora que ela achasse apropriado eu poderia passar de apressado ou tarado. Se eu esperasse demais ela poderia achar que eu não havia curtido e perderia o entusiasmo. Acho que ela chegou pois tem uma moça num carro acenando para mim. Abaixo para pegar a mala com a tensão máxima. A mão tremeu inutilmente, pois vi que ela acenava na verdade para duas meninas que estavam do meu lado. O sofrimento continuava.

E se eu fosse enganado de alguma forma pelos meus desejos? E se minha vontade de estar com ela me deixasse cego para muitas outras coisas? E se a câmera do Skype me deixar mais magro do que realmente sou? Olha, sabe o que deve ter acontecido? Ela já passou, já me viu e seguiu reto. Só está esperando que eu ligue para ela para inventar alguma desculpa. Teve que levar o cachorro para a aula de Kung Fu, buscar a avó que foi no hospital para fazer a fotossintese, qualquer coisa, porque já me viu e desistiu de continuar com essa loucura é isso tenho certeza que é isso essa pessoa já deveria ter chegado me largou aqui essa cretina não acredito que me largou aqui depois de ter viajado sete horas com um barulho de joguinho irritante na minha orelha eu tomei um toco fudido deixa eu pegar aqui o celular para ver que horas são e ver se está tudo bem com ela preciso ligar fico preocupado com essa cachorra ah, não é ela ali naquele Renault?

Cachorra. Cretina. Linda. Ela é linda. Está perdoada. Mas só de maldade vou fingir que não vi. Vou deixar que pela última vez na vida ela tenha que implorar minha atenção já que pelo visto nunca mais será possível deixar de ter.

E dentro do carro a surpresa. Num curioso momento que posso descrever como um deixa que eu deixo, o primeiro contato físico foi um doce beijo.

Ela me beijou. Esse fim de semana tem tudo para dar certo. Essa vida tem tudo para dar certo. É permitido sonhar.

4 comentários:

Thais Nunes disse...

Ane disse...

Nhommmm ti amor!*-*

Maeve disse...

droga!
de tão lindo o texto, me fez voltar a ter esperanças que jurava que não mais teria....

Cecília M. disse...

Lindo. Me emocionei. Apararia umas arestas, mas está lindo o texto.