11 julho 2011

O Roteiro

Apenas a luz da penteadeira no camarim. ele gostava de se preparar assim. Naquela luz baixa, ele tentava preparar sua maquiagem da forma mais alegre possível, para quando todas as luzes fossem fritar seu rosto a maquiagem estivesse mais deslumbrante ainda. Se desse certo na luz baixa, daria certo em qualquer luz. Passou a base branca, desenhou os detalhes dos olhos e dos lábios. Aos poucos, deixava de ser quem era e ia se transformando num Clown Shakesperiano. Enquanto retocava os olhos, repassou aquele texto. O texto era só dele, o roteiro só dele, e ele já havia feito tantas vezes aquele personagem que não errava uma linha sequer. Aquela era a sua peça, seu monólogo diante da platéia.

Colocou o figurino. Se olhou mais uma vez no espelho, aquele mesmo espelho de antes, aquele mesmo camarim. No espelho, aquele mesmo rosto, aquela mesma expressão que sabia falar o seu texto. Não era magistral, mas era seu.

Deixou o camarim e deu os mesmos 25 passos até a sua habitual entrada em cena pela esquerda. Cortina fechada. Não vê ninguém, mas ouve a campainha tocando. O cheiro da poeira das cortinas, o mesmo cheiro de mofo das cortinas. Quando foi a última vez que limparam essas cortinas? Não sabia. Talvez nunca. No outro lado da coxia, observava a sombra de uma figura diferente, que não fazia parte desse seu ritual. Quem seria? Talvez a moça do almoxarifado tinha esquecido alguma coisa ali e estava buscando. O sinal, mais uma vez.

Foi ao meio do palco, esticou os dedos e braços, se alongando. Ficou na ponta dos pés. Fechou os olhos, abaixou a cabeça e expirou fundo. Havia uma presença ali, mas ele não sabia de quem.

O texto decorado, o mesmo texto. As primeiras palavras já carregadas na boca como balas num calibre 38. Anos e anos fazendo aquilo. O terceiro sinal, a cortina se abre. Aplausos. O mesmo cenário vazio. Só ele. Ele contra a platéia. E de repente o baque.

Foi um barulho seco, grave, um susto. A platéia fez "oh', um "oh" mais do que "oh", foi um dos tons mais diferentes do mundo. Ele olhou para o lado. Uma moça havia caído, tropeçado nas cortinas e tombado dentro da cena. A platéia já havia visto, o mundo inteiro já havia visto. Só ele não sabia muito bem o que era. Só tinha certeza de uma coisa: Desde que aquela menina tropeçou e entrou em cena, aquele roteiro não fazia mais sentido algum. Aquele texto todo, anos e anos decorado, não tinha sentido algum mais a partir do momento que ela, ainda caindo no chão, entrasse na peça sem querer.

Mas o show não podia parar. Ele sabia que era preciso improvisar


Um comentário:

Maeve Rêgo disse...

Quando escrevo um poema, gosto de pensar nas inúmeras possibilidades de interpretações cabíveis, gosta ainda mais de não deixar exposta a minha, para que não seja a única.



Gostei da sua metáfora.